BRUNO & BARRETO: A CASTRAÇÃO DOS SENTIDOS

Olá, leitores!


Como estudioso que sou, resolvi por curiosidade, conhecer a dupla Bruno e Barreto. Para isso, assisti à polêmica apresentação, em TV carioca de rede nacional e internacional, com esmerada atenção.


Minha atenção estava aberta a uma profunda e filosófica reflexão. Reflexão esta, que pretendo, agora, partilhar convosco. Bem, a questão é a seguinte: A música comercial popular brasileira melhorou esteticamente?


Se concordarem comigo, a resposta, como veremos, será “sim, alfredinho, é claro que melhorou!”. Logo, transcrevo, agora, o que entendi em 2 ou 3 audições da referida apresentação (a letra da canção está entre parênteses. Escrevi o que entendi e o que não entendi).


Letra da Canção “Farra, Pinga e Foguete”:


Hoje eu quero um dia de sossego Eu quero paz Sentir o cheiro dela O que eu nem me lembro mais


É tudo que planejo Acordar cedo e trabalhar [não deu pra entender] (pegar o mesmo ônibus) Vou pra casa descansar (ir pra casa descansar)


Mais todo fim de tarde A galera fica solta (a galera me aciona) Vamos tomar uma (era pra tomar uma) [não entendo PN] (mas de novo deu em zona)

As luzes estão piscando [não entendi também] (Jukebox tocando) Amado Batista E o pau tá quebrando

Ir trabalhar amanhã (é o cacete) [não ouvi a palavra cacete, de jeito nenhum] Hoje é só farra, pinga e foguete

As luzes estão piscando E os animais tão tocando [entendi isso, da segunda vez] Com Bruno e Barreto E o pau tá quebrando Ir trabalhar amanhã

Hoje é só farra, pinga e foguete


Portanto, eis minha análise da letra da canção:


A tranquilidade da vida é o que a dupla expõe como principal desejo. Ou seja, a libido da dupla, exibida conjuntamente, deseja paz, sossego, calmaria e tranquilidade.

Além disso, quer sentir o cheiro dela. Mas quem é essa ela? Parece que nem a dupla sabe bem. Um dos dois não se lembra bem. E o outro não o ajuda. Portanto, não lembra do cheiro dessa “dela” também.


“Dela” pode ser uma cadela, uma égua, uma água-de-cheiro, uma moqueca, enfim, tudo que for feminino e tiver cheiro, agradável ou não, pois a dupla não expõe uma coisa nem a outra, nesse primeiro momento. Entretanto, tudo que um deles planeja é acordar cedo e trabalhar. É o cotidiano de Chico Buarque parafraseado sem dar crédito, sem fazer citação. Ok, tudo bem. Fazer o quê?


Mas sua redenção não é a anulação do Ser, a transformação do Ser no não-Ser, amálgama foucaltiano da unificação entre razão e loucura. Antes, a salvação desse nosso herói campbelliano se dá através dos amigos, que, segundo dito popular “são os dentes…”.

São os amigos que o convidam.


Os amigos representam o portal que o conduz, de uma vida dividida pela metade, escrava do capitalismo, para a experiência do paraíso, que lhe foi tirada, segundo se pode crer, pelo cair do anjo. Os amigos o chamam para beber. Ou seja, o convidam para participar de um cortejo. E, por isso, nosso herói não está, nada mais nada menos, do que a celebrar, mais uma vez, rituais antigos e essenciais para o ser humano.


É nessa procissão da verdade que nosso herói imerge. Ele, nessa imersão, renasce, discípulo desse Jesus-Dioniso. A música, os timbales que a mãe de Ésquines toca na procissão, segundo Demóstenes; a mãe do príncipe orgulhoso, que Baco humilha, transformando em “traveco” nas Bacantes, então, é o recurso ideal para contextualizar essa cena tragicômica.


Para ser claro, a dupla Bruno e Barreto representa o príncipe orgulhoso que é punido e humilhado por Baco-Dioniso na peça de Eurípedes. O fato de, nessa parte, não ser possível, nosso experimento evidencia, entender o que a dupla insistentemente tenta comunicar, faz parte de uma bem sucedida estratégia de composição musical que poderíamos chamar de: REDUTO DA COMPREENSÃO SUBCONSCIENTE DA MENSAGEM DE ALIENAÇÃO CONDICIONADA (MOURA DE ASSIS, 2016).


Uma estratégia da indústria cultural.


É urgente, portanto, que isso que a indústria nos está a dar (RCSMAC) seja entendido como benção. Obrigado, indústria cultural!


Concluímos nossa análise, com o refrão da canção:

Será que são mesmo as luzes que estão piscando?


Amado Batista, por sua vez, representa uma voz brasileira popular. Sua comunicação com o povo, sendo evocada aqui. Um evoé batista. Os evangélicos, ou melhor, cristãos, de maneira geral, simbolizam esses rituais no “pão e vinho”, no corpo, na corporificação do espiritual, na transformação da água purificadora em vinho dionisíaco; as uvas que embriagaram a família Noé. Mas o pau tá quebrando, ou seja, há violência. [Tudo se repete...]


Há o humano. O sangue purificado do vinho revelador, que revela essa cromossômica união homem-mulher do deus todo-sexo, que se violenta no Sade enjaulado do hospício fétido daquela França-mundo, que se implode, hoje, em bombas sociais, íntimas e repelentes.

Bem, sua vida dividida de escravo, vista como inferior, por Aquele que-tudo-vê e vê de longe, consiste em escravidão-trabalho.


Sua libertação-bacanal é através do álcool (vinho) e do “foguete”. E foguete simboliza a festa.

É na festa que ele se transforma nesse andrógino herói castigado pelo mesmo deus que o seduz, que o afasta da verdade de escravo. É esse herói miserável que a dupla sacraliza.


Esse casamento homogêneo, exposto pela dupla é o revival dos castrati melancólicos do classicismo. São os bobos da corte que falam a verdade das coisas. Cortar o pênis a esses artistas miseráveis? Não. Não que não merecessem. Mas, como não tenho a formação jurídica necessária para saber como puni-los com a castração, não me atrevo a condenar.

Na verdade não quero puni-los, estão livres, estão de parabéns, vieram me libertar.


A dupla Bruno e Barreto é una, é uma só entidade. É a Julieta de Shakespeare, que, ao morrer, renasce. Ela (Julieta, não a dupla) precisa morrer. A dupla se eternizou no momento em que prova que vivemos nessa procissão. Shakespeare e Eurípedes são hábeis a representá-la.


Essa bicha (dupla sertaneja) maravilhosa e messiânica, se purifica e flagela publicamente no pelourinho da rede televisiva. O brasileiro se identifica, se metamorfoseia em “almas-mortas” sertanejas. Sua verdade é essa. É essa sua essência. É esse seu castigo-redenção.

As purpurinas e foguetes desses príncipes, que balbuciam frases incompreensíveis, são o espelho da nossa sociedade doentia e triste.


O belo já não nos interessa mais; o que interessa é a morte. Só pela morte viveremos.

Vamos morrer e renascer na beleza da dupla. Na comunicação do incompreensível, que é compreendido. No desespero de reconhecermos que, por entendermos o que não é possível entender, somos ao mesmo tempo pacientes em camisas-de-força e recebemos as duchas frias desses sertanejos, que, arautos de uma verdade-lixo-mundo-aniquilação, se expressam pelo sexo-libido-desejo-flagelo-sangue.


Sim, a música comercial popular brasileira melhorou esteticamente.


Sim, as luzes estão piscando, mas o meu […] não está.

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